PALAVRAS QUE MATAM
Tomézinho sonhava em
ser vaqueiro. Acordava cedo à semana toda e ia lá campear o gado da
fazenda vizinha. Era novidade todo dia. Aprendeu a laçar, a ordenhar e todos os
convéns que a lida com gado lhe permitisse. De bom grado, ajudava seu irmão
mais velho Antônio, que de trato bruto com o caçula, muitas vezes se esquivava do
seu trabalho principal cobrando-o boa parte dos afazeres na fazenda.
O menino, de dez ou onze anos, não
recordo bem, não reclamava, sempre dizia que dali uns dias se mandaria para São
Francisco trabalhar nos engenhos e ganhar mais dinheiro. Antônio ria, Não de
humor, mas de desdém da pretensão do irmão. Guardando um pouco de dinheiro ali
e acolá, o pobre mulatinho contava com pouco mais de 300 réis. Sonhava em
comprar seu primeiro cavalo.
Um dia, num sábado de
festejo santo, Antônio encheu a cara, descuidando da manhã seguinte. Acordou tomado de
ressaca braba. Acontece que neste dia havia carregamento de rapadura para o
velho fazendeiro e não dispondo de coragem mandou que seu irmão fosse fazer o
serviço para o patrão. Tomézinho ignorou o pedido do irmão folgado e foi para o
quarto contar suas moedas como sempre fazia. O irmão, ébrio ainda, se viu
injuriou pela negação do irmão e dirigiu pesadas palavras ao menor; lhe ofendendo de
todos os nomes. Francisco Tomé Dias de Oliveira tomou rumo ignorado. Por dois
dias não o viram mais. O pai, José Dias, pôs gente a procura do pequeno:
O Cearense, 29 de julho de 1871 - Edição nº 74.
Pobre menino, negado
em vida, abandonado na morte.

Comentários
Postar um comentário